17 de fevereiro de 2009

 

Um ano sem Chico Pinto

Nesta quinta-feira, 19 de fevereiro, a morte de Chico Pinto completa um ano. Amigos, familiares, antigos companheiros de luta mandam celebrar missa, às 9h30, em Coração de Maria, cidade que foi representada por ele na Câmara Federal. É lá que fica a Fazenda Boa Vista, refúgio do político que combateu tão bravamente a ditadura militar. A informação da missa está no blog do deputado federal Colbert Martins.

Há um ano o blog Bahia de Fato registrou:

QUEM ERA CHICO PINTO
Feira de Santana enterrou seu filho ilustre, Chico Pinto, dia 20 de fev. de 2008. Chico Pinto foi advogado de causas populares e trabalhadores rurais na região do semi-árido da Bahia. Foi vereador e depois prefeito de Feira de Santana.

O golpe militar de 1964 cassou seu mandato. Foi um prefeito à frente de seu tempo. Ainda naquela época inventou o Orçamento Participativo que três décadas adiante seria marca registrada do PT. Chico Pinto faleceu, dia 19 de fevereiro, no Hospital San Rafhael, onde estava internado há meses, lutando contra um câncer.

Em seu quarto de hospital há quase um ano recebia amigos: Adelmo Oliveira, Emiliano José, Alceu Barros, Waldir Pires, Mário Lima, Lomanto Júnior, Roberto Santos, José Carlos Brandão, Sigmarina Seixas, Airton Soares, Sebastião Nery, Hélio Duque, Alencar Furtado. Muitos protagonistas da luta política.

O governador Jaques Wagner decretou luto oficial. Chico Pinto era casado com Taís Alencar. Eles tiveram uma filha: Taís Alencar Pinto dos Santos. Taís Alencar é filha do ex-deputado Alencar Furtado, que também teve grande importância na luta contra a ditadura militar.

Chico Pinto comandou a resistência no Movimento Democrático Brasileiro (MDB).

A história da esquerda democrática nos anos 60 e 70 passa por Chico Pinto. Em 1978 participei da campanha de Chico Pinto para a Câmara Federal. Chico Pinto deputado federal, Adelmo Oliveira deputado estadual. Ganhamos. Fizemos um cartaz à época, pois éramos os militantes e os marqueteiros ao mesmo tempo. O cartaz tinha a foto de Chico Pinto com aquele gorro russo na cabeça, camisa preta, ao lado do advogado das invasões populares de Salvador, Adelmo Oliveira. O slogan era "Somos cem milhões de subversivos", numa alusão mais que direta, em tempos de ditadura feroz, à pecha de "subversivos" que os terroristas militares nos impunham através da imprensa.

Chico Pinto foi eleito deputado federal em 1970 e integrou o Grupo Autêntico do MDB, juntamente com Lisâneas Maciel, Marcos Freire e Waldir Pires. Em 14 de março de 1974 Chico Pinto discursou na Câmara Federal contra o ditador sanguinário Augusto Pinochet, que visitava os generais brasileiros na posse do general Geisel. Foi cassado e preso. Pinochet tinha sido o cabeça do golpe militar no Chile que depôs, matou o presidente Salvador Allende, em 1973, e assassinou milhares de pessoas.

Foi radical: "O que nos vem do Chile de Pinochet é o fechamento de jornais, é a censura desvairada à imprensa remanescente. O que nos vem do Chile é a opressão mais cruel, de que nos dá idéia a reportagem e as fotos publicadas pela revista Visão, do campo de concentração da Ilha Dawson.

O que nos vem do Chile é o clamor dos presos (...) Três mil mortos, segundo Pinochet declarou a Dorrit Harazim, da revista Veja (...) Mas o que nós desejamos, Sr. Presidente, é apenas deixar registrado nos Anais, o nosso protesto e a nossa repulsa pela presença indesejável dos vários Pinochets que o Brasil infelizmente está hospedando.

Se aqui houvesse liberdade, o povo manifestaria seu descontentamento e a sua ira santa, nas ruas, contra o opressor do povo chileno. Para que não lhe pareça, contudo, que no Brasil estão todos silenciosos e felizes com sua presença, falo pelos que não podem falar, clamo e protesto por muitos que gostariam de reclamar e gritar nas ruas contra sua presença em nosso País".

Com base na Lei de Segurança Nacional, Chico Pinto foi cassado e preso no 1° Batalhão da Polícia Militar de Brasília. Em seu discurso tinha chamado Pinochet de assassino, mentiroso e fascista. Era demais para os ditadores de farda. O discurso foi censurado. Saiu da prisão em abril de 1975. Repetiu o discurso na Rádio Cultura de Feira de Santana. Veio novo processo. Em 17 de dezembro de 1974, em carta dirigida ao ditador Ernesto geisel, recusou o indulto de Natal acenado pela ditadura. Assim era Chico Pinto. (Publicado no blog Bahia de Fato em 20 de fevereiro de 2008).


Ode-Elegia ao companheiro Chico Pinto

"Numa severa afirmação da luta, uma impassível negação da morte"
Vinicius de Moraes

De tua mão brotou um lírio
De tua boca a voz da Pátria
Feira, ó Feira de Santana
Antiga Feira dos Olhos Dágua

O vento trocou de caminho
E fez a multidão na praça
Feira, ó Feira de Santana
Antiga Feira dos Olhos Dágua

Prisões - Relâmpagos - Martírios
- A Liberdade ensanguentada
Feira, ó Feira de Santana
Antiga Feira dos Olhos Dágua

Aqui na fronteira do dia
Bateu o coração da Pátria
Feira, ó Feira de Santana
Antiga Feira dos Olhos Dágua

Adelmo Oliveira,
Bahia, 20.02.08

QUEM É O POETA ADELMO DE OLIVEIRA
Adelmo José de Oliveira nasceu em 13 de maio de 1934, na cidade de Itabuna, na Bahia. Em 1962, sob um júri formado por nomes de expressão da literatura brasileira, como Manuel Bandeira, Austregésilo de Athayde, José Carlos Lisboa e Pio de Los Casares, recebeu o Prêmio Nacional Luis de Góngora com ensaio “Góngora e o Sofrimento da Linguagem”. Formado em Direito pela Universidade Federal da Bahia, 1966, participou do Movimento Cultural baiano escrevendo estudos, ensaios e poesias para os principais jornais e revistas de Salvador.

Publicou entre outros títulos: Canto da Hora Indefinida, 1960; Três Poemas, 1966; O Som dos Cavalos Selvagens, 1971; Cântico Para o Deus dos Ventos e das Águas, 1987; Espelho das Horas, 1991; O Canto Mínimo, 2000, (Antologia Poética) Poemas da Vertigem, 2005. Participou de várias Antologias Poéticas editadas na Bahia, no Sul do País e no Exterior. Lutou contra a Ditadura Militar de 1964, sendo preso por duas vezes e torturado. Foi eleito Deputado Estadual à Assembléia Legislativa do Estado da Bahia pelo antigo MDB em 1978.

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